quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quando Richard Matheson salvou minha vida

Matheson era aquele tipo de autor do qual se ouve mais falar do que se lê. Na verdade, me parece que hoje em dia esse é um tipo bem comum. Mas, para ser mais honesto com o cara, pode-se dizer que ele era um autor mais visto do que lido.

Como muitos dos seus necrológios frisaram, ele roteirizou o clássico ‘O Incrível Homem que Encolheu’, uma ficção científica com evidentes ecos swiftianos, que resgatava a clássica questão do ‘homem como medida do mundo’ numa sociedade assombrada pela Guerra Fria. Além disso, Matheson foi responsável pelo roteiro daqueles que até hoje são considerados alguns dos melhores episódios da antológica série Twilight Zone, veiculada no Brasil com o sensacional título de ‘Além da Imaginação’ – sem falar no episódio ‘O Inimigo Interior’, da primeira fase de Jornada nas Estrelas, tido por muitos como o ponto alto da série clássica.

Caso fosse brasileiro, antes mesmo de um gigante da ficção científica, Matheson certamente seria um estouro de vendas da literatura kardecista, cabeça a cabeça com Chico Xavier, devido a duas obras – posteriormente também transformadas em película – ‘Em Algum Lugar do Passado’ e ‘Amor Além da Vida’. Dois romances bem xaropes: o primeiro sobre viagem astral/temporal, estrelado pelo (melhor) Superman Christopher Reeve; o outro, uma espécie de refilmagem da novela ‘A Viagem’ com Robin Williams num rolé por diferentes planos astrais em busca da esposa suicida.

'Em Algum Lugar do Passado', aliás, foi um estouro de bilheteria da minha adolescência, a gente vivia passando na locadora e fazendo sessões lá em casa. Chororô garantido das menininhas.

Além destas, a história pela qual Matheson certamente será lembrado é ‘Eu Sou a Lenda’. Curiosamente, não vi nenhuma das três filmagens, nem a com Vincent Price, de 1964, a com Charlton Heston, de 1971, ou a com Will Smith, de 2007.

O sucesso de Matheson no cinema e na tevê ajudou o público brasileiro a ter acesso à obra escrita dele, uma vez que nosso mercado editorial sempre ofereceu pouco espaço para a ficção científica. Mesmo sendo um dos grandes nomes do gênero, por exemplo, poucas histórias além das levadas às telas nos chegaram impressas – e ainda assim, muitas edições estão fora das prateleiras há um bom tempo.

Por isso, qual não foi minha surpresa quando, numa viagem de trabalho a Mossoró, após uma rápida visita a um sebinho do centro e sob os efeitos de uma ressaca pantagruélica, encontrei um exemplar surrado de ‘Eu Sou a Lenda’, da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, da editora Francisco Alves, lançado em 1981. Foi como entrar inadvertidamente na Atlântida, em Xangri-lá, ou em São Saruê, e dar de cara com o Graal, o Velocino de Ouro, a Lâmpada Mágica, a figurinha de Rivelino do álbum da Copa de 70.

‘Eu Sou a Lenda’ é daquelas histórias cuja reputação a precede. Publicado em 1954, o livro acompanha o cotidiano do cientista Robert Neville, um suposto último sobrevivente da raça humana num mundo devastado por uma praga que transforma todos os infectados em zumbis. Enquanto passa os dias rodando por uma metrópole abandonada em busca de equipamentos e víveres e matando as criaturas adormecidas que encontra, Neville passa noites de medo e suspense isolado em sua casa-bunker, cercado pelas criaturas despertas, que tentam destruí-lo.

Graças a uma elaborada estratégia de sobrevivência, retratada com minúcias por Matheson, ‘Eu Sou a Lenda’ dialoga assim com o Crusoe de Dafoe, ecoando num gênero tido como popularesco, a ficção científica, um romance fundador da modernidade. Tal qual o náufrago célebre, Neville busca, através de um individualismo estoico, reafirmar sua civilidade em meio ao caos e à selvageria.

Matheson com seus vampiros bestiais também lança as bases da metáfora do zumbi contemporâneo, a criatura-rebanho remotamente humana, reduzida às necessidades elementares (ou, na visão apurada e posterior de George Romero, ao consumo desenfreado simbolizado pelo canibalismo), que se tornou paradigma da cultura pop atual.

Por fim, ‘Eu Sou a Lenda’ é um dos primeiros textos a promover um fortuito encontro de dois gêneros ligados à ficção especulativa, o horror e a ficção científica, ao buscar encaixar uma causa racional para a epidemia, justificando ‘pseudocientificamente’ não apenas a infecção vampírica, como os ‘sintomas’ do mal, como a aversão a espelhos, alho, etc. Esse diálogo seria fundamental para oxigenar o gênero e anteceder expressões como o New Weird, surgido na década passada.

O final, anticlimático, bem diferente da patuscada promovida por Smith (não vi o filme, mas sei como termina) questiona, como qualquer grande obra que se preze, não apenas qual o lugar do homem no mundo, mas o que realmente é o homem e o que é o monstro, o outro, o desviante, quando se perde qualquer noção de semelhança e alteridade.

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