Quem sou eu

Jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos, dividido entre Natal e João Pessoa por tempo indeterminado.

11.30.2011

[ensaio] o mito do eterno retorno: tempo e espaço como formas do cotidiano nas tirinhas de jornal

Este ensaio foi desenvolvido a partir de umas ideias que lancei anteriormente, no texto sobre Bachelard. Tenho pensado bastante este ano na natureza do tempo na narrativa dos quadrinhos.

O texto a seguir, pra variar, é parte de um maior, que engloba também algumas especulações sobre as histórias de super-heróis. Como o professor da disciplina Teorias do Cotidiano, Wellington Pereira (que infelizmente abandonou o twitter), limitou o espaço do ensaio para 5 laudas, acabei resumindo a pensata às tiras diárias.

Divirtam-se.

11.26.2011

intervalo comercial

próxima sexta, dia 2, Jards Macalé no show Revendo Amigos, no Bar do Zé Reiera, Centro. À noite. Parece que é 15 contos, confira em algum jornal. Imperdível.

***

Porque se Jards só tivesse gravado essa faixa, já seria um gênio.

dylan [and baez too]


11.18.2011

bortolotto

Bortolotto, meu velho, assim você quebra minhas pernas.

***

Tem tudo isso que ela pensa que eu sou. O desastre. E poucas vezes eu testemunhei um sorriso interrompendo um massacre. Agora eu sei que a chuva não vai lavar toda a tristeza. Eu sei que a chuva só vai emoldurar a última cena dessa manhã sem sol. O que me alivia é aquele momento de silêncio com ela sem jeito e sem saber onde colocar as mãos. Se ficava de pé ou não. Então quando tudo não fizer mais o menor sentido, pelo menos eu vou lembrar dessa manhã sem sol, dos carros subindo a rua, da chuva embaçando meus olhos. Mas acima de tudo, vou lembrar que ela não sabia se sorrir era de bom tom. E então ela vai embora, no momento que eu solto a pause do detonador. Ninguém nunca mais vai me tirar daqui. Da frente dessa porta que não vai mais abrir.

***

E digo mais:


11.17.2011

gus morais

Dica da amiga Mara Medeiros. Muito bom o trabalho do quadrinista Gus Morais.

oswaldo lamartine

Conhecer Oswaldo Lamartine de Faria foi uma das boas coisas que o trabalho como jornalista me proporcionou. Além de grande escritor, e aqui o grande é até um adjetivo que diz pouco sobre sua escrita, era um 'figura humana' (eita, clichezinho sem vergonha) ímpar.

As atenções se voltam mais uma vez para a obra de Oswaldo Lamartine de Faria com esta edição do Festival Literário de Pipa, que começa hoje. É ótimo, mas é pouco. Oswaldo devia ser lido todo dia, que nem ladainha de missa.

Enquanto cascavio aqui meus alfarrábios atrás de uns textos que escrevi sobre o cabra, fiquem com o discurso que o próprio apresentou à UFRN, ao receber o título de doutor honoris causa daquela instituição. Vale lembrar que ele sequer chegou a possuir curso superior. Era um sem-diploma.

***


À UFRN, na pessoa do seu reitor Dr. Ivanildo Rêgo, professores, funcionários e alunos.

Perdi horas de sono e de sossego tentando entender a razão de tudo isso.

De primeiro, cuidei ter sido pelos descaminhos dos homens neste mundo de ranger dentes, desassossegado que nem as ondas do mar. Depois, quem sabe, o afago de vosmecês, no adeus desse meu imerecido viver. Sei lá. É que a balança do julgamento dos amigos costuma ser manca.

E não é astúcia, pantim, nem cavilação, pois o que botei no papel foram apenas momentos do dia-a-dia do nosso sertanejo.

Convivi com alguns deles debaixo das mesmas telhas – tenho repetidamente confessado.

Mestre Pedro Ourives e seu filho Chico Lins – magos do couro, zelosos e ranzinzas, da escolha do couro-verde ao derradeiro nó-cego da costura. Ramiro e Bonato Dantas, pescadores d’água doce e memorialistas. Zé Lourenço, tora de homem, analfabeto, cujos instrumentos de trabalho se resumiam em um nível de pedreiro e um novelão de cordão. Pois bem, apenas com eles, levantou 640 metros de parede do açude Lagoa Nova sem deixar um caculo nem uma barroca – o que deixou o engenheiro do DNOCS de queixo caído.

Olinto Ignácio, rastejador e vaqueiro maior das ribeiras de Camaragibe. Vi, um dia, ele se acocorar na beira do caminho e ler no chão da terra: “Passou fulano, beltrana e uma menina. É que a gente dessa terra tanto faz eu espiar a cara cumo o rastro...” E todos já envultados com a Caetana.

Daí eu repetir: é mais deles do que meu esse título.

Mesmo assim, encabulado, areado e zonzo, tenho de confessar: não sou soberbo nem ingrato.

Agradeço a vmc e, mais ainda, ao doutor Reitor – sertanejo das Terras do Pôr-do-sol. Onde, naqueles ontens, os condutores das boiadas ferravam o tronco de um pé-de-pau onde se arranchavam. Coisas de um Sertão de Nunca-Mais. Tempos do imperador velho. Mas isso é outra conversa.

Boa noite. Façam, agora, como manda aquele menino:

Batam palmas com vontade,
Faz de conta que é turista...

11.15.2011

[resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra


Minha geração rendeu muita gente boa. Quando falo em 'minha geração' estou considerando aqueles caras uns cinco anos mais novos ou mais velhos do que eu, que são meus amigos e estão por aí tirando onda há mais ou menos uma década. São as figuras com as quais, em um determinado e crucial momento, a convivência foi um elemento central na definição do tipo de maluco que a gente seria dali pra frente.

Desse bolo, saíram bons jornalistas, poetas, cineastas (no caso, pelo menos um), pesquisadores, professores, artistas plásticos e músicos, entre outros inúteis. E minha geração rendeu um bom ficcionista, o melhor entre eles, Pablo Capistrano.

legenda autoexplicativa
e desnecessária: capa do livro 
Pablo reafirma esse meu sentimento (porque feeling é meio gay ou publicitário demais – o que dá praticamente no mesmo) em seu mais recente livro, 'É preciso ter sorte quando se está em guerra', lançado esse ano pelos Jovens Escribas.

São três contos bastante acima da média da ficção que vem sendo publicada em Natal recentemente. Li, quase numa paulada só, nesse fim de semana.

No livro, Pablo aprofunda a relação com a literatura fantástica que havia ficado evidente em seu romance de estreia, Pequenas Catástrofes, e faz uma pequena viagem sentimental aos anos 90, a época em que éramos jovens, mas nem tão inocentes assim.

O conto de abertura, 'A Escada de Jacó', retoma um tema clássico da literatura do gênero, o doppelgänger, o duplo, que está por aí assombrando escritores há um bom tempo. No enredo, um norte-rio-grandense descobre um 'antípoda' seu, mais famoso e bem sucedido, morando no Rio Grande do Sul.

Dá pra lembrar, por exemplo, de Allan Poe e de Borges – quem melhor soube desenvolver esse tropos. Talvez por isso, por discorrer sobre um tema já recorrente, seja a história que menos funcionou para mim.

Uma narrativa interessante, mas que peca em alguns momentos como, logo no início, na reação exagerada do protagonista ao fato singular que desencadeia a trama. Em outros, dá pra sentir a mãozinha do autor forçando a barra para instaurar o sentimento do fantástico, aquele estranhamento que perturba a realidade ficcional, sem, no entanto, escangotar para o fantasioso, como ensina o tio Todorov.

Esse mergulho no fantástico está bem melhor resolvido em 'O Sutra do Girassol'. O caleidoscópio de referências usadas por Pablo se mostra mais eficaz na narrativa sobre Ariel, um boêmio cuja vida é alterada por um evento cósmico inusitado que o atinge durante uma mijada.

Vê-se ali alguns temas caros a Lovecraft, apesar do estilo mais espontâneo e coloquial adotado por Pablo – o que nos remete também às histórias de Vonnegut, até pelo humor que permeia a narrativa. Há tempo ainda pra uma escorregadela kafkiana e uma alusão sem-vergonha a este resenhista que será devidamente vingada no momento apropriado.

E aí chegamos à Grande História deste livro de Pablo. Em 'Saudades do Amor', o relato sobre uma antiga paixão de um amigo, Rudá, serve de pretexto pra o narrador dar um breve e intenso mergulho na década de 1990.

Não sei quanto a vocês, mas eu estava lá. Digo, nos anos 90. E apesar da mística e do saudosismo que envolvem quaisquer lembranças referentes aos anos de juventude de alguém, ser um adolescente, ou começar a se despedir da adolescência naquela Natal era uma experiência plena de som, fúria e tédio.

Quer dizer, tinha todos aqueles livros, as bebedeiras, as festas sensacionais em que dificilmente se comia alguém, os programas de índio a la 'yanomâmi tur' e a tentativa diária e muitas vezes frustrada em romper a pasmaceira que cobria a cidade feito a bruma de fumaça deixada pelas fogueiras de São João.

E tinha o Nirvana. Puta merda, como aquele cara podia entender tão bem a insuportabilidade tropical da nossa cidade mesmo vivendo em Seattle, onde chove 300 dias por ano? Não sei. Mas funcionava que era uma beleza.

Pablo foi substituído por um gaúcho gordinho
Pablo coloca tudo isso em sua história e ainda sobra espaço para uma sutil e fascinante irrupção do fantástico que apenas reforça o encantamento juvenil dos personagens com seu próprio tempo.

Como um descarado discípulo beatnik, Pablo mistura boa ficção com lembranças mais ou menos reais e é irresistível, pelo menos para quem esteve lá – como eu, o exercício de identificar locais, situações e amigos que emergem no conto.

A droga que Rudá e seus amigos tomaram no cais da Rua Chile (LSD? Tetrapharmakon? Madeleines?) me fez pensar em quantos de nós ainda nos falamos pelo menos uma vez por ano, num encontro fortuito; quantos piraram e nunca mais foram vistos; quantos morreram; quantos viraram crentes e fingem olhar alguma vitrine ao nos cruzarmos no corredor de um shopping.

Ao mesmo tempo – que besteira – tudo aquilo já passou, é finito, ficou pra trás, ca-bum. E talvez nem tenha sido uma história assim tão interessante. No final, só o que restou mesmo foi muita gente boa por aí, e um bom ficcionista, o melhor dentre nós, para nos enganar numa tarde de domingo contando histórias mais ou menos reais de quando éramos jovens e nem tão inocentes assim.

***

P.S.: Havia prometido esta resenha pra ontem, mas nesse feriadão a internet e o universo conspiraram – o que nunca ocorre a meu favor.

11.11.2011

natal tá chegando...

Ó a dica.



P.S.: Quero ficar um velhinho assim que nem o Goida.

rammstein

rock é rock mermo, véio.



Rammstein - Mein Land from Rammstein on Vimeo.

mais um do astier

Furei sim. Adormeci depois do cansaço do dia. Mas, não resisti e trouxe pra cá mais um dos vídeos em que os amigos leem poemas de 'Retratos Falados', livro mais recente de Astier Basílio.

Este aqui, com Renato Félix incorporando Zé do Caixão pra interpretar o "Cordial folhetim do encontro entre Demo e o Diabo na cabeça de Glauber e no corpo de Othon", tá ótimo.



11.10.2011

astier

Quando cheguei aqui em João Pessoa, Astier Basílio foi a primeira pessoa que me deu guarida - apesar de nunca tê-lo visto antes mais gordo, ou magro.

Aliás, ele é mais um a comprovar a minha particularíssima teoria de que, na Paraíba, 73,57% da população tem nomes sui generis. É como se fosse uma Caicó com quase 4 milhões de habitantes.

Pois bem, eis que Astier, jornalista, poeta, contista e dramaturgo, está a lançar mais um livro. Pelas minhas contas, o 150º, cujo título é 'Retratos Falados'. Vai ser hoje, lá no Casarão 34 e devo estar por lá, certamente.

Olhem a vinhetinha bacana que ele preparou (reparem na sala, onde dormi por uns 15 dias):



Apesar de bom dramaturgo, Astier é, convenhamos, um péssimo ator. Então, dos vários vídeos que ele postou no Youtube, achei que pegava melhor pra ele se eu reproduzisse aqui um com alguém que realmente sabe ler um bom poema:


ainda os 12 pares

Recebi ontem ligação de Clotilde Tavares, que havia lido minha resenha da HQ 'A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás', e conversamos (bastante) sobre cordel e outras mumunhas.

Para minha surpresa (e gáudio), Clotilde avisou que tem em casa uma edição de 'A História do Imperador Carlos Magno e Seus Doze Pares de França', herança deixada pelo pai dela, e se dispôs a me deixar folheá-la na ocasião de uma visita que não tardará.

Caso você não tenha o privilégio de ter amigos tão generosos, não se preocupe: o Google Books tem uma edição digitalizada da "Historia do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França: Traduzida do castelhano em portuguez com mais elegancia para a nossa lingua por Jeronimo Moreira de Carvalho", numa edição de 1863, disponível para download gratuito (pode espocar os fogos agora).

11.08.2011

o tempo e as HQs

O grande desafio no semestre passado foi 'descartesianizar' o pensamento para mergulhar nas teorias do cotidiano pelo trampolim da fenomenologia. A cada aula do professor Wellington Pereira, tinha a impressão que alguém da turma ia surtar (se bem que Alessandro, meu colega anarco-marxista-bakhtiniano, chegou bem pertinho) à medida que a gente ia se aproximando da tal pós-modernidade.

(De minha parte, como o 'caractere' pós-moderno do cyberpunk era ponto passivo entre as fontes, tava tudo tranquilo.)

Uma das leituras bacanas foi a de Bachelard. Moacy Cirne já havia despertado minha atenção para a obra desse pensador derna a época de 'Quadrinhos: Sedução e Paixão' (para mim, disparado, o melhor livro do mestre).

Como exercício, fiz esse pequenino ensaio a partir de algumas ideias presentes no capítulo de abertura de 'A Intuição do Instante'. Obviamente, apoiado sobre os ombros de Cirne.


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O instante bachelardiano e os quadrinhos

Para se entender o instante, ‘unidade ontológica’ de percepção do tempo proposta pelo historiador francês Gaston Roupnel e desenvolvida filosoficamente por Gaston Bachelard em A intuição do Instante, pode-se utilizar a metáfora dos quadrinhos e sua linguagem.
No primeiro capítulo da obra, Bachelard busca conceituar o instante e o contrapõe ao conceito de duração desenvolvido por Henri Bergson. A duração, em Bergson, pressupõe um tempo absoluto, um todo, cuja natureza seria definida pela duração – um sentido de permanência do passado, no qual o instante seria uma espécie de cristalização ou ápice da duração, “um corte artificial que ajuda o pensamento do geômetra”, nas palavras de Bachelard. Nesse sentido, passado e futuro compõem uma única forma, um bloco no qual o presente seria dado pela ação da inteligência sobre a vida.
Bachelard propõe inverter a lógica bergsoniana e defende que a unidade primordial do tempo é o instante, sendo a duração uma soma destes: “a duração é feita de instantes sem duração, como a reta é feita de pontos sem dimensão”. Neste sentido, o tempo é descontínuo e sua duração é uma construção da memória a partir de instantes significativos.
A sensação de duração que temos, ao contrário de figurar como uma prova sensível e intuitiva da realidade da duração, se dá porque entre os instantes significativos, ou atos conscientes de ruptura, nos deparamos com uma infinidade de instantes vazios de significados, nulos – essa nulidade, esses ‘encadeamentos de nada’, constituem a natureza da duração sensível.
Assim, Bachelard propõe enquadrar o pensamento de Bergson como uma filosofia da ação (que se estende no tempo, mas na qual seria impossível definir seu ponto de partida ou final); enquanto o pensamento de Roupnel seria uma filosofia do ato (marcado pela irrupção do instante na descontinuidade temporal).
Uma maneira de visualizar esse conceito bachelardiano pode ser pela metáfora do quadrinho. Ao desenhar uma história em quadrinhos, o artista se propõe a cristalizar, no interior do requadro [1], um momento-chave da narrativa, rico em expressividade e em significado, mas ‘congelado’ no tempo. A continuidade narrativa é garantida pelo encadeamento entre os quadros, no qual o quadro seguinte cristaliza outra situação posterior no tempo.
O corte gráfico [2] é, nos quadrinhos, um espaço de significação reservado ao leitor. Ao vermos um quadro colocado ao lado de outro, seguindo o sentido de leitura a que estamos habituados, conferimos continuidade a eles, e completamos, na imaginação, os fatos ocorridos entre o momento anterior e o seguinte.
O que o desenhista faz, então, ao criar o requadro e seu conteúdo, é capturar o instante significativo, o momento de expressividade ideal, o ato de ruptura que impulsiona a narrativa, tal como propõe Bachelard. Por sua vez, o corte gráfico representaria o encadeamento de instantes nulos, que produzem a falsa sensação de duração.
Ampliando essa relação, temos na página da revista, em seu conjunto de quadrinhos, a representação de uma duração bachelardiana – ou seja a reunião de instantes transgressores que compõem a memória do passado irremediavelmente destruído.
Transpondo a metáfora para o conceito de tempo em Bergson, chegamos a um quadrinho improvável, mas desafiador de ser imaginado, no qual a página seria uma mancha gráfica contínua, sem requadros e cortes gráficos, em que os personagens escorreriam por situações e cenários encadeados indistintamente. Porém, como representá-los em seu antes e depois narrativo, uma vez que o traço deveria dar conta dos deslocamentos espácio-temporais dos personagens numa cinemática que não contemplaria sucessão de posições, mas continuidade?



[1] A borda do quadrinho
[2] O espaço em branco, a hachura existente entre um quadro e outro numa HQ.

outra resenha

Na disciplina de metodologia da pesquisa, uma das atividades propostas pelo professor Marcos Nicolau foi a elaboração de uma resenha acadêmica crítica de algum livro que tivesse relação com a pesquisa de cada aluno - e preferencialmente uma publicação recente.

Escolhi resenhar o livro 'Visões Perigosas: Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk - Comunicação e Cultura', da Adriana Amaral, porque foi um livro fundamental para a construção do meu projeto. Devido a pouca bibliografia em português sobre o assunto (cyberpunk) e também o pouco tempo para formatar o projeto na época da seleção para o mestrado, se não fosse por esse livro e outros dois (o do Fábio Fernandes e o do André Lemos), eu estaria, no melhor dos mundos panglossianos, fudido.

Há uns dois meses, descobri que o professor Marcos Nicolau publicou o texto lá na Revista Temática, publicação ligada ao NAMID e editada por ele. Como na pós-graduação tem tão pouca gente que às vezes dá a impressão de você estar falando para as paredes, resolvi rodar o texto na paulista aqui pra vocês.

Clica aqui e vai lá conferir.

P.S.: Revisei essa bagaça umas três vezes antes de enviar para o professor, mas, pra variar, ainda escaparam uns dois errinhos. Em nome da (minha) posteridade, relevem aí.

11.05.2011

[Resenha] A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás


Às vezes basta um livro para entalhar o caráter de um povo. Calma, que não vou falar aqui nem da Bíblia, nem do Corão, seus fundamentalistas de uma figa. Essa máxima veio-me à cachola depois de adquirir ‘A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás’, de Leandro Gomes de Barros, adaptado para os quadrinhos por Klévisson Viana e Eduardo Azevedo (Editora Tupynanquim, 48 págs., R$ 20).

(O álbum foi uma das coisas boas que trouxe da Feira de Livros e Quadrinhos de Natal, comprado com recursos próprios no estande da editora mossoroense Queima-Bucha, do poeta e gente boa Gustavo Luz.)

Capa do álbum
‘A Batalha...’ é o texto fundador da literatura de cordel, publicado por Barros nos últimos anos do século 19 (não sou especialista, por isso procure a data exata em outro canto).

Neste poema épico, formado por 100 estrofes de 10 versos em sétimas, o cordelista recria um episódio da ‘História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França’, este por sua vez uma tradução portuguesa de uma canção de gesta francesa do longínquo século XII.

Em seu ‘Seridó Século XIX – Fazendas e Livros’, publicado em 1987 em parceria com o padre João Medeiros Filho, Oswaldo Lamartine de Faria já citava ‘A História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França’ entre os livros que habitavam os baús dos velhos coronéis daqueles chãos sertanejos, em companhia, talvez, de um exemplar de Vida dos Santos ou do Lunário Perpétuo.

É interessante notar como três ou quatro livros, num mundo largamente iletrado e engatinhando rumo à ‘civilização’, puderam marcar o imaginário nordestino, tornando-se num dos seus elementos constitutivos mais evidentes. Se o registro por escrito das canções de gesta nos legaram o cordel, sua presença oral na cultura ibérica, e por conseguinte no sertão brasileiro, nos renderam um vasto romanceiro, como lembra Câmara Cascudo em 'Flor de Romances Trágicos'. Certamente vem daí o impulso sertanejo em glorificar e idealizar figuras guerreiras como a dos cangaceiros, por exemplo.

(Aqui um breve adendo de um mestrando paranóico, vendo relações em tudo que lhe surge à frente. Erick Felinto, falando sobre o imaginário tecnológico da cibercultura, alerta para o cuidado em se identificar como esse imaginário contamina os textos teóricos sobre a cibercultura, atrapalhando a construção de uma visão crítica sobre o fenômeno. Não seria também 'culpa' do imaginário que, por tanto tempo, insistissem os estudiosos sobre o Nordeste em uma mal explicada estrutura social medieval só superada a partir da industrialização tardia no século 20? Eis a pulga, eis a orelha.)

Quadrinização transmite
a grandeza épica do texto
Daí a importância dessa adaptação aos quadrinhos de Klévisson e Azevedo. Adaptação em termos, uma vez que o texto integral foi preservado, sem no entanto, nenhum prejuízo à narrativa visual construída pela dupla. O que não é de estranhar, uma vez que Klévisson é fera tanto na arte sequencial quanto na do cordel.

O álbum narra o célebre confronto entre o cavaleiro cristão Oliveiros (Oliver, na canção de gesta francesa) com o mouro Ferrabrás, filho do Almirante Balão (no caso, o Emir Balan). Após invadir, com seus exércitos, os domínios do rei Carlos Magno, Ferrabrás se acerca do palácio do monarca, já idoso, e desafia para um duelo qualquer um de seus valorosos Pares de França, os 12 cavaleiros de sua elite guerreira.

O problema é que, além da fama de guerreiro sanguinolento de Ferrabrás não ser lá um grande incentivo, os cavaleiros encontram-se esgotados por uma batalha recente e se recusam a encarar a fera. Convocado pelo próprio Carlos Magno, Roldão (talvez uma corruptela de Roland?), o mais bravo dos 12 pares, se nega a entrar em combate e termina por se desentender com seu rei e seus companheiros.

Oliveiros, acamado devido a um grave ferimento, ao saber da confusão, envergonha-se com a postura dos demais cavaleiros e, mesmo sem condições, se apresenta para a batalha. O restante da história narra os pormenores do combate, que você só não sabe como termina caso nunca tenha assistido a qualquer folguedo popular em que os brincantes se dividem em cordões azul e encarnado.

Vale registrar o apurado rigor visual na reconstituição de vestuário e adereços, uma característica dos trabalhos anteriores de Klévisson voltados para o cangaço, mas agora direcionado para o mundo medievo. Além disso, a adaptação é rica na heráldica e simbologia que tanto impregna, por exemplo, as obras do movimento armorial brasileiro, parecendo-me um rico e feliz encontro entre a cultura popular sertaneja e a tão mal falada (por parte dos armorialistas) cultura de massa (no caso, os quadrinhos).

Assim, Klévisson e Azevedo imbuem o texto de Barros de uma agilidade narrativa que antes, nas feiras livres e avarandados de fazenda, só poderia ser imaginada, mas que não deixa de encantar àqueles hoje tão acostumados a mundo pleno de imagens para onde se vire o rosto. Daí o mais do que justo apoio governamental para que a obra saísse do prelo.

Alguns quadros são ricos na simbologia
sertaneja apropriada pelo movimento armorial 
Com seu quê de fanzine, pela forma artesanal como eram criados, os cordéis sofrem de dois problemas recorrentes. Um deles é a questão da autoria. Leandro Gomes de Barros, por exemplo, foi largamente 'pirateado' por outros autores.

Em 'No Reino da Poesia Sertaneja', coletânea de seus cordéis organizada por Irani Medeiros e publicada em 2002 pela Editora Idéia, há um interessante fac-símile de uma página de advertência criada pelo próprio poeta com os seguintes dizeres:

'AVISO IMPORTANTE – Aos meus caros leitores do Brasil – Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas – aviso que desta data em diante todos os meus folhetos completos trarão o meu retrato. Faço este aviso afim de prevenir aos incautos que teem sido enganados na sua bôa fé por vendedores de folhetos menos sérios que teem alterado e publicados meus livros, cometendo assim um crime vergonhoso. Leandro Gomes de Barros – Recife, 9 de 7 de 1917'

(Imagina aí se Barros vivesse nos dias de hoje, com os 'chupões' de posts espalhados pela web...)

Assim, essas várias reimpressões indébitas e não-autorizadas por vezes terminavam alterando o texto original, o que poderia ensejar um interessante estudo na área de textologia (mas eu mesmo é que não vou fazê-lo). Eis aí o segundo problema: a questão da identificação e permanência da versão original do texto através do tempo.

Falei nisso porque, cotejando o texto utilizado na adaptação de Klévisson e Azevedo com o publicado na coletânea de Medeiros, encontrei algumas incongruências. Isso só pode se explicar pela disparidade entre as fontes originais usadas por cada um dos autores. Vou enumerar só duas porque faltou coragem de ler os textos em paralelo até o final – se achar ruim, me processe.

A primeira localizei quando Ferrabrás esbraveja às portas do castelo de Carlos Magno. Além da pontuação diferente na estrofe, os versos na coletânea de Irani Medeiros estão assim:

'Se não tem dó dos guerreiros, / De uma vez mande Oliveiros, / Guy de Borgonha e Roldão!'

Já a adaptação de Klévisson e Azevedo traz assim:

'Se não tens dó dos cavaleiros, / De uma vez mande Oliveiros, / Gui de Borgonha e Roldão.'

Como se observa, além da mudança da terceira pessoa para a segunda, no primeiro verso, o uso de 'cavaleiros' no lugar de 'guerreiros' acaba por quebrar o pé do verso, acrescentando-lhe uma sílaba a mais.

Mais à frente, no episódio da recusa de Roldão em enfrentar Ferrabrás, possesso com a atitude do cavaleiro, Carlos Magno atira-lhe um objeto no rosto, despertando a fúria do seu subordinado. Acompanhe a versão registrada por Medeiros:

'Roldão, quando olhou, que viu / O sangue dele descer, / Não pôde mais se conter - / Se armou com tal furor, / Que não foi ao imperador / Por Ricarte se intervir.'

Agora o texto da adaptação aos quadrinhos:

'Roldão quando olhou que viu / O sangue dele descer, / Não pôde mais se conter; / Se armou com tal furor, / Que não foi ao imperador / Por alguém se 'interver'.'

Aqui, mais uma vez desconsiderando-se as alterações na pontuação, percebe-se o sumiço do cavaleiro Ricarte do verso (o que não compromete a narrativa, uma vez que é a única participação da personagem) e, principalmente, o erro proposital na grafia de 'intervir' no último verso, com intuito de manter a rima. É bom lembrar que esse recurso é comum na literatura de cordel, mas que, na versão registrada por Irani Medeiros, prefere-se perder a rima e manter-se a correção ortográfica.

Em relação ao excelente trabalho artístico dos autores, apenas uma ressalva. Mais adiante, perto do desfecho da peleja, talvez pelo calor da batalha, os autores deixaram escapar um erro de continuidade. Quando Oliveiros já está pedindo água de tanto que a luta rende (não sei dizer a página, pois o álbum não traz a numeração, nem vou contar pra dar uma de caxias), no quadro inicial da página, o vistoso bigodinho do cavaleiro simplesmente some, para reaparecer no quadro seguinte. Além disso, uma falha na diagramação findou por repetir o texto do último verso fora do balão, na altura do peito do personagem.

Obviamente, essas observações não comprometem nem desqualificam o excelente trabalho dos autores. Quando comprei o álbum, inventei de dar uma folheada em casa e foi impossível conseguir largá-lo antes do final.

Afinal de contas, é uma história que está entalhada no caráter de um povo e no meu também.

11.04.2011

wado

A trilha da semana tem a assinatura de Everton Dantas, que já foi enfant e hoje é só terrible. Foi pelas mãos dele que o link do disco novo do Wado chegou às nossas oiças e, agora, às de vossas senhorias.

Ei-lo:


***

Wado disponibilizou o disco para download gratuito em seu site oficial. Recomendo.

11.02.2011

Contracultura

Na disciplina de Henrique Magalhães, sobre Socialidade nas Mídias, uma das aulas previstas era sobre os quadrinhos underground brasileiros. Para isso, era necessário à turma conhecer algumas informações sobre a contracultura (brasileira e norte-americana) que serviram como pano de fundo para o surgimento desses quadrinhos. Afinal, a maioria desses autores ou vinha do desbunde ou sofria influência direta dele.

Como é um assunto importante para minha pesquisa, afinal o aspecto contracultural de Spider Jerusalem (e da cultura digital como um todo) me parece fundamental para entender seu ethos jornalístico, sugeri uma apresentação introdutória sobre o tema.

O principal problema, nesse caso, foi fugir do que está escrito no livro 'Contracultura Através do Tempo - Do mito de Prometeu à cultura digital', de Ken Goffman e Dan Joy,  a fonte mais completa sobre o assunto que localizei. As demais eram muito presas ao período em que surgiu o termo, nos anos 1960, e precisava encontrar uma ponte que me possibilitasse expandir o termo para outros momentos históricos. Ca-bum.

De todo modo, ainda consegui enfiar algumas citações do 'O que é Contracultura', de Carlos Alberto Pereira (por sinal, muito fraquinho) e outros autores mais ligados à cibercultura, como Adriana Amaral, André Lemos e Mark Dery (seu Velocity Escape é sensacional, recomendo).

Ainda assim, uns 85% do seminário foram mesmo chupados do Goffman & Joy. Taí os slides.

11.01.2011

Sobre jornalistas e HQs

Semana passada, apresentei um seminário sobre um aspecto central da minha pesquisa de mestrado, a representação do jornalista nas histórias em quadrinhos.

A proposta foi delinear algumas características do jornalista enquanto grupo social. Para isso, usei como base o livro 'Teorias do Jornalismo vol. 2. A Tribo Jornalística, uma comunidade interpretativa transnacional'. O interessante na obra é a proposta de explicar que o modo de ser e de viver do jornalista influencia a maneira como as notícias são produzidas.

A partir dessas características, Traquina enumera os mitos que permeiam a ideologia profissional dos jornalistas. Desse ponto em diante, parto dos conceitos propostos pelo pesquisador Erick Felinto para imaginário e imaginário tecnológico (que ele por sua vez vai buscar em Walter Benjamin e Wolfgang Iser) para identificar como esse mitos são reproduzidos nos personagens em quadrinhos que trabalham como jornalistas.

Minha intenção é ver como esses mitos aparecem em Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson, e como os autores os manipulam para fazer sua própria crítica à prática jornalística.

Segue aí a apresentação de slides: